É possível definir Arte?
Postado por rodrigoarte em terça, março 9, 2010 Em: teoria da arte
Muitas pessoas como os próprios artistas, os teóricos da arte, estetas
e filósofos, escritores, jornalistas e críticos de plantão, vez ou
outra sentiram o dever, o poder ou a curiosidade de definir arte, e
tentaram fazer isso. Digo tentaram, pois definir é uma responsabilidade
muito grande, já que a arte não é uma coisa só, nem eterna, nem
definitiva, para conter uma única definição, como requer o termo.
Ela se presta a diferentes leituras, portanto, diferentes modos de
vê-la e pensa-la em cada tempo e lugar, em cada civilização, em cada
sociedade, em cada cultura e mesmo em cada indivíduo que a pense.
Resta-nos então a possibilidade de tentar delimitar características que
lhe sejam comuns e, por meio delas, identificar o que pode ser e o que
não pode ser entendido por arte dentro de um dado contexto cultural. Um
primeiro aspecto que deve ser levado em conta é que a arte, enquanto
manifestação humana, sempre ocorreu em qualquer tempo ou lugar. Todas
as civilizações conhecidas produziram obras de arte e a arte sempre foi
um dos elementos de identidade cultural, capaz de distinguir uma
sociedade de outra. Uma ocorrência presente e capaz de suscitar as mais
diversas apreciações, quer fosse da ordem do pessoal ou do coletivo. Um
segundo aspecto é lembrar que as funções que ela exerce em cada
sociedade são diferentes de uma para outra. Se para o ser humano
pré-histórico a arte serve para evocar vibrações positivas para
empreender a caça, para o ser humano contemporâneo serve tanto para
decorar um ambiente como para intervir ou transformar outro. Um
terceiro aspecto, é que os modos de fazê-la também se distinguiam
entres essas sociedades. Na pré-história ocupava as paredes das
cavernas, na Idade Média as paredes das igrejas, hoje em dia nem as
paredes a suportam.
Podemos então dizer que a arte assume em cada momento e em cada lugar,
um modo próprio de existência, logo, é impossível esperar que uma
simples definição dê conta de toda sua complexidade.
Em termos de síntese, acreditamos que a arte seja uma das maneiras que
a humanidade tem para se manifestar. Esse seria então o primeiro
elemento de significação para seu entendimento. Entretanto, existem
manifestações humanas das mais diversas índoles, como podemos então,
diferenciar aquelas chamadas artísticas daquelas que não chamamos arte?
Um bebê está se manifestando quando chora, provocando sua mãe a lhe
fornecer alimento; uma pessoa também se manifesta quando esbraveja de
indignação por ter sido ludibriada; entretanto, estas manifestações,
embora expressem sentimentos e intenções reais de cada um, assumem um
caráter prosaico, trivial, ou seja, não demonstram qualquer reflexão em
relação ao próprio ser da arte, não se dispõem a desenvolver ou cumprir
nada além de apaziguar a fome ou o ânimo. Portanto, não é este tipo de
expressão que nos interessa no contexto da arte.
Para facilitar o entendimento do que estamos tentando dizer é só
imaginarmos uma situação numa peça teatral ou num filme, por exemplo: A
mãe, ao ouvir o choro do filho, corre até ele para verificar sua
segurança, ao tomá-lo em seus braços percebe sua fome e o alimenta e
embala. Nada mais sublime para significar a atenção e o carinho que a
mãe dedica ao filho. Neste caso, a fome não é o fator de significação,
mas sim a atenção da mãe para com o filho, ou seja, a maternidade. O
outro exemplo, do sujeito que esbraveja por ter sido enganado. Ao fazer
isto no mundo natural, poderá causar a indignação das demais pessoas
com as quais dialogue, mobilizar a atenção contra aquele que o enganou
ou contra si próprio. Ao passo que se transportarmos esta situação para
o cinema ou o teatro, teremos uma representação onde alguém é subjugado
por outro, demonstrando o assédio moral. Logo, podemos nos constranger
pela personagem, por nos sentirmos também vítimas deste tipo de
conduta. Assim, distinguimos as manifestações do mundo natural daquelas
que ocorrem na arte, pois na arte fazemos uma reflexão, uma reoperação
de elementos com vistas a transformar ou explicitar valores e não
simples atos. Observando o percurso histórico da humanidade, vimos que
o ser humano se relacionou de várias maneiras com o meio em que viveu,
como também, com os outros com os quais viveu. Para conhecer estas
manifestações, é necessário dirigir o olhar para a arqueologia, para as
cavernas, os instrumentos que construía e as pinturas, esculturas e
incisões que realizava na rocha, já que não temos outros modos de nos
informar a respeito de como este ser agia no seu tempo e espaço. Uma
das primeiras coisas que devemos entender, é que não era possível
distinguir entre as diferentes manifestações humanas aquelas que
pudessem ser chamadas de arte daquelas que pudessem ser chamadas de
pragmáticas ou técnicas. Caçar, coletar e se apropriar daquilo que
estava à sua volta, era um modo de sobreviver e dialogar com o entorno.
O caminho da humanidade se desenvolveu na medida em que o ser humano
foi se apropriando e transformando aquilo que era possível a ele
transformar. Suas necessidades se confundiam com os anseios, com o
sonho, com as ilusões e com a imaginação. Provavelmente, aquele ser
humano, não sabia muito bem a diferença entre a imaginação e a
realidade. Estas duas instâncias se confundiam a tal ponto que criar
imagens para se apropriar da realidade já instaurava um ritual, assumia
um sentido mágico e propiciatório. Esta é uma das hipóteses mais
aceitas sobre as imagens criadas na pré-história. Dominar o bisão
fixando-o na parede da caverna era um passo importante para o domínio
do animal no campo de caça, portanto, a manifestação artística era
também parte do ato pragmático da caça e, ao mesmo tempo, mágico, um
rito, ligado à sua sobrevivência.
Arte ou magia? Qual seria a função deste labor?
Em princípio podemos dizer que esta função se refere a estes dois
propósitos, é magia e também é arte na medida em que para realizar a
magia opera elementos típicos da criação, opera o que chamamos de
substâncias expressivas e as ordena segundo critérios que os distinguem
dos atos espontâneos e superficiais como nos referimos ao choro ou a
indignação.
Portanto, o elemento que diferencia qualquer manifestação de uma
manifestação artística é o Estético. Bem, vale a pena tomar a Estética
como referência, não sem antes explica-la. Estética é o substantivo
feminino que vem do grego Aisthetikós, cujo sentido se refere a
sensível, sensitivo, sensação. Alexander Gotlieb Baumgarten
(1714-1762), pensador alemão, dedica parte de seus estudos às análises
das faculdades sensitiva humanas e sua relação com a apreciação
artística e batiza esse campo cognitivo de Estética. Logo, Estética
nada mais é do que uma disciplina cujo objeto é a Arte e a apreensão do
conhecimento sensível. Nada mau para poucas linhas. Podemos concluir
então que a Arte é uma manifestação estética e humana, portanto,
poderíamos dizer, sem falsa modéstia, que a Arte é a manifestação
estética da humanidade. Embora essa seja uma conceituação um tanto
tautológica, nos ajudará a entender o conceito de Arte.
Professor Isaac Antonio Camargo
Professor de História da Arte no Curso de Arte Visual da Universidade Federal de Uberlândia-UFU, Minas Gerais, de História, teoria e crítica de Arte visual.
Professor Isaac Antonio Camargo
Professor de História da Arte no Curso de Arte Visual da Universidade Federal de Uberlândia-UFU, Minas Gerais, de História, teoria e crítica de Arte visual.
Endereço original e para outros textos do professor Isaac acesse
http://artevis.blogspot.com/
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